Em entrevistas concedidas ao Jornal Nacional e ao Jornal da Record, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil não aceitará de forma passiva a investida de Donald Trump, que ameaçou sobretaxar em 50% as exportações brasileiras caso prossiga o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF). Para Lula, a carta enviada por Trump demonstra “total desconhecimento” do ex-presidente americano sobre as relações comerciais entre os dois países e é “absurda”.
“Primeiro, vamos tentar negociar. Mas, se não tiver negociação, a Lei da Reciprocidade será colocada em prática. Se ele vai cobrar 50%, vamos cobrar 50% deles. A gente não tem medo”, declarou Lula, ressaltando que antes de adotar medidas tão duras, pretende esgotar todas as possibilidades de diálogo.
O presidente lembrou que Trump já recuou de ameaças parecidas feitas contra México e Canadá e destacou que, no governo brasileiro, a reciprocidade é vista como uma última alternativa. “Se ele ficar brincando de taxação, vai ser infinita. Vamos chegar a milhões e milhões por cento de taxa. O que o Brasil não aceita é intromissão”, criticou.
Estratégia com setor privado
Lula afirmou ainda que vai reunir empresários dos setores que seriam mais prejudicados para articular uma reação conjunta, envolvendo pressões sobre compradores norte-americanos e também recursos em organismos internacionais. “Podemos recorrer à OMC (Organização Mundial do Comércio), propor investigações internacionais, cobrar explicações. Vamos criar uma comissão de negociação juntando empresários e o governo, ver quais são as decisões, quem é afetado, como vai ser afetado, como a gente pode procurar novos mercados. Pretendo reunir todos os empresários que têm exportação para os Estados Unidos, sobretudo aqueles que têm maior volume, para ver qual é a situação deles. O Brasil gosta de negociar. Depois que se esgotarem as negociações, vamos aplicar a Lei da Reciprocidade. Então, espero que (os empresários) estejam aliados ao governo. Porque se existe algum empresário que acha que o governo tem que ceder e fazer tudo que o presidente do outro país quer, esse cidadão não tem não tem nenhum orgulho de ser brasileiro”, defendeu o presidente.
Desmentindo argumento de déficit
Em relação ao suposto déficit comercial dos EUA com o Brasil, Lula apontou que Trump erra ao apresentar esses números: “Em 2023, exportamos US$ 40 bilhões e importamos US$ 47 bilhões dos EUA. Tivemos um deficit de US$ 7 bilhões. E se somarmos os últimos 15 anos, o Brasil acumulou um deficit de US$ 410 bilhões com os americanos. Será que ninguém do Tesouro explicou isso para ele antes de escrever aquela carta absurda?”, questionou.
Responsabilidade de Bolsonaro
Na visão de Lula, o ex-presidente Jair Bolsonaro deve ser responsabilizado politicamente pelo clima de tensão, já que seu filho, Eduardo Bolsonaro, está nos Estados Unidos tentando convencer Trump a adotar medidas contra o Brasil. “O ex-presidente da República deveria assumir a responsabilidade, porque ele está concordando com a taxação do Trump ao Brasil. Foi o filho dele quem foi lá fazer a cabeça do Trump, que começa uma carta tentando fazer um julgamento de um processo que está na mão da Suprema Corte”, criticou.
“Aqui é para todos, doa a quem doer”
Sobre as acusações que pesam contra Bolsonaro e o pedido de Trump para que cessem as investigações, Lula foi enfático: “Não dá para aceitar o presidente de um país importante como os Estados Unidos em uma carta para mim, publicada em um site, avocar o fim da ‘caças às bruxas’, em defesa para um ex-presidente que tentou dar um golpe neste país. Ele (Bolsonaro) não tentou dar um golpe: tentou preparar a minha morte, a morte do presidente do Tribunal Superior Eleitoral, à época o Alexandre Monais, a morte do vice-presidente (eleito Geraldo Alckmin). Quem vai ser julgado não é o cidadão Bolsonaro. Quem vai ser julgado são os autos do processo. Se ele tiver razão, será absolvido. Se não tiver, será condenado e preso. É assim que funciona a Justiça no Brasil. Aqui, é para todos, de verdade. Doa a quem doer”, ressaltou.
Por fim, Lula disse que está aberto ao diálogo institucional, mas que não vê motivo para conversar diretamente com Trump neste momento: “Converso com o presidente do país, seja ele quem for. Ele foi eleito pelo povo e precisa conversar. Agora, eu não tenho nada para conversar com o Trump. Aliás, ele não dá motivo para que a gente tenha algo para conversar. Temos tempo para ouvir os empresários, a OMC, outros países. E quando chegar o momento, que for necessário, não terei nenhum problema de pegar o telefone e ligar, correndo o risco de ele, de forma mal-educada, não me atender”, ironizou.









